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O CARÁCTER, O HOMEM, O ESCRITOR JÚLIO DINIS

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em Artigos de opinião

A Igreja de S. Francisco, no Porto, foi o local de culto de predilecção de Júlio Dinis, durante a sua breve existência. Em frente a esta igreja viveram os pais do escritor, na antiga rua do Reguinho, a actual rua de S. Francisco, na freguesia da Vitória, na cidade do Porto. Aqui nasceu e viveu, onde passou também a conviver com a morte, que atingiu a sua família, e a ele próprio aos 31 anos de idade.
Contrariamente à opinião de alguns críticos, que consideraram Júlio Dinis avesso à crença de Deus, de homem de fé, devemos reflectir que a sua vida foi atravessada, por valores e causas que reflectiam o contrário. Homem de alta moral, isso sim, crítico sempre foi, sobre uma fé vivida por alguns que a professavam, que para ele contrariavam o pensamento e belo exemplo de vida de Cristo.
Isso mesmo se reflectiu nos seus registos, nas cartas trocadas com familiares e amigos íntimos, ou nos belos painéis pintados nos seus romances, em que é forte essa componente de homem de fé, mas resistente à hipocrisia de uma sociedade, seja ela religiosa ou pública.
Em quantos momentos de angústia, de tristeza, pela perda de mais um elemento da família, ou de amigos, Júlio Dinis no interior da igreja de S. Francisco, colocando-se sempre do lado da nave direita, onde daí o seu campo de visão atingia todo aquele extraordinário esplendor do templo, dos seus "santos" com quem comunicava numa prece, num desabafo, ou no silêncio do templo, encontrava a paz interior.
Por motivos da demolição de uma vasta zona ribeirinha, para um novo plano urbanístico, da construção do edifício da Alfândega Nova, em Miragaia, que levou ao desaparecimento da Porta Nova da muralha Fernandina, teve que se transferir, com o seu pai o Dr. José Joaquim Gomes Coelho, para a Rua de S. João Novo, uma casa modesta.
O seu irmão, o Dr. Guilherme, falecido em 1855, viveu na zona de Monchique, onde deixou viúva, sua esposa, com três filhos, o Guilherme, Alberto e Ana (ou Anita como Júlio Dinis a tratava). Era muito vulgar a visita de Júlio Dinis a esta casa, particularmente pela atenção e carinho especial que manifestava com a sobrinha Anita, porque considerava, a mais necessitada de protecção e apoio (sendo a mais nova dos sobrinhos).
Vem para Ovar, em Maio de 1863, pelo motivo do agravamento da sua saúde, que o abalou, precisamente numa altura em que tudo apontava para a possibilidade da entrada como Demonstrador na Escola Medico-Cirúrgica, no concurso aberto em Abril desse ano.
Na casa da Tia Rosa Zagalo, onde estava hospedado, recebeu por volta de Julho, a sua sobrinha Anita, que para ele foram momentos particulares de grade felicidade. Acompanhou a Anita, pelas ruas centrais de Ovar, dando a conhecer alguns locais com interesse, até que a levou até ao átrio da igreja matriz. Aqui, enquanto aguardava pela hora da Missa, Júlio Dinis à sombra de um plátano, observava as brincadeiras da Anita, que com as suas pequenas mãozitas abriam uma covita, e assim se entretinha.
J
á no interior da igreja, Júlio Dinis colocava-se junto à nave direita, momentos que se repetiriam enquanto permaneceu em Ovar, como se o fizesse transportar até à igreja de S. Francisco, no Porto. O momento delicioso e de encanto, é atitude tão querida de Júlio Dinis, após o regresso da sua sobrinha Anita, a Monchique, no Porto, é quando o escritor, como habitualmente fazia, se desloca à igreja Matriz, e ao estar debaixo daquele plátano, lhe vem à recordação a sua sobrinha, agora ausente, então toma a atitude, um tanto apressada (talvez porque não seria entendida por quem o visse) de renovar a covita que Anita tinha feito.
Esta cena de extrema ternura, os afectos maternais que encontrou da parte de sua tia D. Rosa Zagalo (sua mãe faleceu de tuberculose quando tinha 5 anos de idade), os seus encontros com a ruralidade, dos personagens com quem conviveu intensamente, fizeram com que em alguns momentos se esquecesse da doença, razão que o tinha trazido a Ovar. Recordar estes episódios, é a melhor homenagem que podemos prestar, a Júlio Dinis, em mais um momento da passagem do 168.º aniversário do seu nascimento, em 14 de Novembro de 1839, na rua do Reguinho, freguesia da Vitória, da cidade do Porto. 
 António Ferreira Valente

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